Há experiências que não se esgotam no tempo que duram, prolongando-se em apontamentos mentais e ideias que regressam mais tarde, já noutros contextos. Foi um pouco esse o contexto da visita que o Projeto Estúdio realizou ontem à Bienal de Arte Contemporânea Anozero, cujo núcleo central reúne no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova mais de duas dezenas de artistas e uma reflexão sobre a forma como habitamos o mundo.
Para os membros daquele grupo de teatro da APCC – Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra, não foi difícil identificar pontos de contacto com “Insurgente”, o programa que estão a desenvolver: se em Anozero se propõe uma reflexão sobre arquitetura, reciprocidade e formas de habitar, eles próprios têm vindo a interrogar-se sobre a forma como a palavra pode ocupar espaços, reclamar presença e construir novas possibilidades de encontro.
A própria afirmação da arquitetura como elemento central desta edição da Bienal revelou-se motivo de interesse para o Projeto Estúdio, atendendo ao seu percurso. Afinal, este tem passado por imaginar ocupações e modos de utilização dos espaços onde se apresenta, procurando compreender de que forma cada contexto influencia aquilo que é dito, ouvido e partilhado. O caráter mais ou menos convencional do contexto e a capacidade que uma obra tem de alterar a forma como olhamos para um lugar foram, por isso, conceitos também presentes nesta visita.
Mais do que procurar respostas, a passagem pela Anozero acrescentou novas pistas a um processo criativo que o Projeto Estúdio continua a construir, com o Teatro Académico de Gil Vicente, o coletivo declAMAR Poesia e outros espaços culturais e livrarias de Coimbra. E, nesse sentido, acabou também por funcionar como uma espécie de visita de estudo: um momento de observação e reflexão, cujos ecos surgirão mais tarde.
O Projeto Estúdio é um dos dois grupos teatrais em atividade na APCC, sendo coordenado pela atriz e professora de teatro Adriana Campos. Está atualmente a trabalhar em “Insurgente”, um programa construído em torno de livros, objetos e gestos que se insurgem, gritam, reclamam e se rebelam. Na cronologia do coletivo, trata-se do sucessor de “É Urgente” (2025), “Uma sombra é para…” (2023 e 2024), “FLORescente” (2022), “Loja de Vender Fi” (2019), “Loja de Vender Poetas” (2018) e “Cem Linhas” (2016).
O teatro é uma das áreas artísticas que constituem uma parte importante da ação da APCC enquanto promotora da inclusão social. É desenvolvido tanto através de dinâmicas no campo da expressão dramática, como de apresentações a públicos diversos.






