Quando a criação artística se transforma em participação, o palco deixa de ser apenas um lugar de apresentação para se tornar um espaço de reconhecimento, afirmação e cidadania. É essa reflexão que Paulo Jacob, musicoterapeuta e professor de música na APCC – Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra, desenvolve num artigo integrado no mais recente número da revista Medi@ções, cujo lançamento decorreu no passado sábado, no âmbito do IV Seminário Educação, Práticas Artísticas e Inclusão.
Partindo da experiência com os 5ª Punkada e Ligados às Máquinas, é analisada a forma como a criação musical coletiva pode constituir um verdadeiro instrumento de participação cultural, educação artística e transformação social. O percurso daqueles dois coletivos fundados na APCC demonstra, de resto, que a prática artística por parte de pessoas com deficiência ultrapassa a lógica do acesso à cultura, contribuindo para afirmar o seu direito a serem criadoras, intérpretes e agentes culturais reconhecidos.
Ao longo do artigo “Da Instituição para o Palco – criação musical coletiva como prática de inclusão e educação artística”, Paulo Jacob (ele próprio membro de ambos os grupos) explora as suas respetivas identidades artísticas e as metodologias que lhes dão forma. Mas, sobretudo, explica como o reposicionamento simbólico das pessoas com deficiência num plano de centralidade e proeminência lhes permite conquistar novos espaços de visibilidade pública e contribui para a construção de contextos culturais mais representativos da diversidade humana.
Publicada pela Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal, a Medi@ções é uma revista científica dedicada à divulgação de investigação nas áreas da educação, das artes, da comunicação e das ciências sociais. Reúne contributos de investigadores e profissionais, incentivando o debate entre diferentes linhas do pensamento científico. O seu 14.º número é subordinado ao tema “Educação, Práticas Artísticas e Inclusão: perspetivas para uma cidadania democrática e cosmopolita”.
Os Ligados às Máquinas são um projeto musical de originais construídos a partir da combinação de amostras sonoras dos mais diversos estilos musicais, definindo-se por isso como uma orquestra de samples. Têm um disco editado e já atuaram em vários pontos do país, além de terem colaborado com projetos de diversas áreas artísticas. Os 5ª Punkada são uma banda pop/rock, que conta com mais de 300 apresentações ao vivo, em Portugal e no estrangeiro. Com dois discos lançados, fizeram também dois documentários — um dos quais distinguido no IndieLisboa —, estiveram nomeados para os Prémios PLAY e receberam um Prémio Acesso Cultura.
Os discos “Somos Punks ou Não?”, “Deserto de Amor” (dos 5ª Punkada) e “Amor Dimensional” (dos Ligados às Máquinas), todos lançados pela Omnichord, podem ser comprados na APCC: na secretaria do Centro de Reabilitação de Paralisia Cerebral, no Bazar da Quinta ou enviando uma mensagem para o e-mail secretaria@apc-coimbra.pt.
Existem atualmente quatro grupos musicais em atividade na APCC, cujo trabalho na área da música se desenvolve através de intervenções ao nível da musicoterapia, educação musical adaptada e expressão musical adaptada.